Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘Crônica’ Category

o homem que caminhava

cruz e sousa.

O Homem que Caminhava

por Hélio Jorge Cordeiro

                                                                                                   

Estava eu andando distraído, quando dei de cara com um homem exageradamente enfatiotado pra um dia normal de semana, empunhando uma bengala. Ele caminhava elegante pela rua.

Adiantei o passo para chegar mais perto dele:

 – “Meu Deus, é o grande Cruz e Sousa!”

Cheguei junto dele e não resisti:

 – “Poeta, me perdoe a intromissão no seu caminhar, mas o que você… Oh, desculpe-me, posso referir-me a sua pessoa com essa intimidade?”

Ele continuou a andar elegantemente, fronte altiva e me disse:

 – “Claro, não seria justo se tu me dirigisses a palavra tratando-me com tanto salamaleque, se somos sujeitos aparentados?”

Eu surpreso e sem entender lhe perguntei:

 – “Como assim, aparentados, poeta?… Não entendi!…”

Ele sem alterar o ritmo de seu caminhar completou:

 -“Não lembras que os teus bisavôs eram gente de tez negra como eu?”

Claro! Disse eu, com certo embaraço. Ele, então, parou e perguntou-me, colocando sua mão sobre meu ombro:

 – “Mas, o que querias me falar, mesmo?”

Eu lhe disse sem titubear:

 – “O João não quer beber um copo com o primo?”

Saímos os dois pela rua pra um botequim que ficava num lugar muito distante no tempo: lá em Nossa Senhora do Desterro.

                                                                                                                   

(*) Hélio Jorge Cordeiro, o querido e popular Helinho, nos enviou este texto especialmente para ser publicado neste blog, em alusão e homenagem a este Dia Nacional da Consciência Negra.

                                                                                                                               

                           Itajaí, 20 de novembro de 2007.

Anúncios

Read Full Post »

don’t follow leaders*

não siga läeres...

don’t follow leaders*

“Jesus Cristo é meu Senhor, Jesus Cristo é meu amigo” – Jorge Ben.

conta-nos o Rei Roberto Carlos que, “outro dia, um cabeludo falou: ‘não importam os motivos da guerra. a paz ainda é mais importante que eles’. esta frase vive nos cabelos encaracolados das cucas maravilhosas. mas se perdeu no labirinto dos pensamentos poluídos pela falta de amor. muita gente não ouviu porque não quis ouvir. eles estão surdos!”.

mesmo demonstrando um certo pessimismo, Robertão não entregava os pontos. na mesma canção, prosseguia, num estilo que pode ser grosseiramente chamado de lisérgico-religioso:  “um dia o ar se encheu de amor e em todo o seu esplendor as vozes cantaram. seu canto ecoou pelos campos, subiu as montanhas e chegou ao universo. e uma estrela brilhou mostrando o caminho ‘glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade'”.

certa vez, falando sobre os anos 1960 em uma entrevista, John Lennon confessou: “eu acreditava de verdade que todos nós seríamos salvos pelo amor”. nesse sentido, Jesus havia garantido, muito antes: “o amor cobre multidão de pecados”. mas a conclusão a que Lennon chegara não era lá tão animadora, e ele utilizou uma de suas composições para responder ao outro cabeludo: “Cristo, cê sabe que não é fácil. cê sabe como pode ser duro… do jeito que a coisa anda, eles vão é me crucificar”.

menos interessados em blablablá, os Stones iam direto ao ponto: “eu não quero falar sobre Jesus, apenas quero ver seu rosto”. enquanto isso, fazendo o tipo “quem-avisa-amigo-é”, Bob Dylan simplesmente advertia: “não siga líderes”.

                                                    andrepinheiro, 09/11/2007

  
* apenas uma brincadeira bem idiota com as letras de “Todos Estão Surdos” (Roberto / Erasmo), “The Ballad of John and Yoko” (Lennon / McCartney), “Subterranean Homesick Blues” (Dylan), “Brother” (Jorge Ben) e “I Just Want to See His Face” (Jagger / Richards).

Read Full Post »

nós

nós

embora não pareça, sabemos muito bem aquilo que queremos. além disso, sabemos muito bem a que viemos. muito mais do que empregos, nos interessam trabalhos. temos uma sede insaciável de poder: não enquanto substantivo, pelo qual se luta e se oprime e que se acumula, cristaliza; queremos beber na fonte da liberdade as águas do poder enquanto verbo: aquele poder que se conjuga. “eu posso, tu podes, eles podem…”… e nós podemos! podemos e também fodemos com uma série de formas acabadas, práticas esgotadas e manifestações de um pensamento conservador e tacanha. sem compaixão: com fúria e leveza, fodemos por paixão e prazer, desejo de criar e vontade de fazer.

por entre os túmulos da poética que produzem esse nosso cemitério da inventividade – auschwitz-nosso-de-cada-dia -, vagamos em busca de tochas que iluminem a nossa procissão. nesta expedição, à beira desta estrada, não somos vãs guardas, guardiões de nada. buscamos apenas o nosso graal: não necessariamente o belo ou o óbvio, mas o novo, o imprevisível, o singular: matéria-prima da poesia.

determinados e com a constância de ritmistas, parecemos-somos neo-alquimistas. nossa pedra filosofal? o amor. diluído sob as mais diversas formas. o amor: livre e disforme massa de modelar à espera das mãos de irrequietas crianças. o amor: materializado em verso, voz e gesto; força imortal, suave licor que escorre das garrafas do tempo.

malditos ou beneditos? iconoclastas, irreverentes, efervescentes… who fuck are we? nothing, meu bem, nada de mais. sim, como já disseram, somos auto-indulgentes e muito generosos conosco mesmos. andando a sós, somos simplesmente nós. nós somos todos aqueles que me acompanham. nós somos eu e todos os outros eus que convivem comigo em mim. e também todos os outros eus que nesta(s) jornada(s) nos acompanham.

                                       andrepinheiro, 19/09/2007

Read Full Post »

noite

noite

gosto de pensar e escrever à noite; gosto de pensar e escrever a noite. tenho prazer em caminhar, ler, assistir a filmes durante a noite. é como se me alimentassem a quietude e a escuridão. me apraz o silêncio de um lar onde todos repousam, a sonhar: cada um em seu cômodo, no único momento de ordem possível na casa.

é inestimável a satisfação propiciada pelos sons noturnos que, apesar de às vezes irromperem com intensidade, não conseguem fazer despertar uma cidade que dorme. são motores e buzinas; músicas que se derramam pelas portas dos bares em direção às ruas; tambores percutidos e violões dedilhados nos luaus; brigas, acidentes de trânsito… a violência urbana que brota e explode como catarse, liberadora de todas as paixões, de todos os excessos reprimidos durante o dia.

gosto de ouvir meus próprios passos durante a madrugada, quando sou apenas um espectro a testemunhar a solidão de esquinas e calçadas. é gratificante ser e estar, agir e atuar à noite. ser fogo-fátuo entre os vampiros, pombas-giras e outras criaturas tragadas e trazidas à tona pelas marés noturnas.

são personagens reais, que encontramos durante as deambulações, ou imaginários, que chegam pelas páginas dos poemas e romances… chegam, povoam a casa e invadem o quarto, dividindo espaço no mundo da vigília, do qual fazem parte a mulher que dorme, a televisão e os livros. gosto tanto da noite que chego a ter medo quando irrompem as primeiras claridades do dia.

                                                                

                                                                          andrepinheiro, 09/09/2007

Read Full Post »

um assombro de lugar

  

um assombro de lugar

desde ontem estou aqui em Rio do Oeste, um belo e pacato município localizado no Alto Vale do Itajaí, na microrregião de Rio do Sul, com área total de 245 Km² e a 276 Km de distância de Florianópolis. na população de 6.729 habitantes predominam os descendentes de italianos, com muitos descendentes de alemães também. pretos locais, até o momento, não vi. agora faz um frio de lascar os ossos. não há muito o que se fazer por aqui, além de ficar no computador, tomar um café que descolei na cozinha e ler os livros que trouxe.

estou aqui a trabalho, acompanhando a delegação itajaiense que disputa a 7ª Olimpíada Estudantil de Santa Catarina – Olesc. os jogos acontecem na cidade de Rio do Sul, que na minha opinião deveria receber o título de Capital Mundial da Ponte e promover anualmente a Festa Nacional da Ponte – Fenaponte. proporcionalmente, nunca vi tanta ponte numa cidade só.

falando em Rio do Oeste e Rio do Sul, ainda não encontrei – e olhe que estou procurando – Rio do Norte e Rio do Leste para completar a coleção. mas isso fica para outra vez… por enquanto, ressalto novamente a beleza dos lugares, como já fiz na primeira linha desse texto.

o misterioso convento

o mais curioso disso tudo, além dos jogos, que são sempre muito divertidos e interessantes, é o local onde estamos hospedados, aqui em Rio do Oeste. a Escola Estadual Básica Expedicionário Mário Nardelli é um lugar enigmático, intrigante.

a imponente e belíssima construção, que data dos anos 1940 – iniciada em 1944, conforme Euclides, que trabalha aqui – foi erguida para abrigar um convento, que funcionou por muitos anos no local. depois, as irmãs venderam o prédio ao Estado, que o transformou em escola.

até aqui, tudo bem. só por isso, o lugar já impressiona. afinal de contas, guarda muito ainda do ambiente que abrigou, segundo Euclides, mais de cem freiras. o prédio é amplo, mas bastante escuro. sombrio. principalmente a partir do final da tarde. muito bem estruturado, mas, ao mesmo tempo simples. a sensação é mesmo de claustro. a cor escura e o estalar do chão de madeira, as portas, as paredes reforçadas. os quadros e os crucifixos – sim, eles estão por toda parte! – e as escadas.

e, além disso, uma infinidade de entradas e caminhos – atalhos – extremamente discretos. estes, com uma ajuda da imaginação, tornam-se logo – ou não seriam mesmo? – passagens secretas. logo que pisei aqui, uma das primeiras lembranças que me veio à mente foi “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco. livro e filme. angustiante. perturbador. alguns arrepios são inevitáveis.

mas, como se isso não bastasse, veio logo a história. a princípio, apenas em forma de comentários soltos. pensei, ingenuamente, tratar-se de algo inventado para assustar a garotada dos jogos e fazer com que todos fossem dormir com maior facilidade. mas não. Euclides, o senhor que trabalha na casa, confirmou o episódio, ocorrido há sete anos: numa noite de outubro, uma menina de nove anos, filha de um casal de professores que aqui lecionavam, veio até a escola para esperar pela irmã mais velha, que estava no curso de dança.

quando estava em uma sala do primeiro andar, a menina, ao ver que as cortinas fechadas, sentou-se para ficar apoiada na janela, que ela julgava também estar trancada. mas não: a janela estava aberta… ao sentar-se e buscar apoio para as costas, a menina caiu… um rapaz, que estava ao lado, foi rápido e ainda conseguiu segurá-la por um dos pés. no entanto, quis o destino que ele ficasse apenas com um tênis na mão, enquanto a menina voava para a morte.

o fato chocou a cidade. segundo nosso relator, a comoção foi geral. ele, que já testemunhou o passamento de muitas pessoas importantes e abastadas, afirma nunca ter um funeral despertar tanta emoção e ser acompanhado por um número tão grande de pessoas.

perguntado a respeito de possíveis assombrações, aparições ou outras manifestações de espíritos – da menina ou de freiras desencarnadas -, o funcionário Euclides, extremamente religioso, é categórico ao afirmar a inexistência de qualquer presença do sobrenatural nas instalações da escola. de qualquer forma, a tragédia marcou a cidade e contribuiu para aumentar a aura de mistério em torno da casa. o nome da menina? prefiro não reproduzir neste texto, para não abalar o imaginário de algumas pessoas, que podem fixá-lo, e também para não perturbar o ser que rompeu os umbrais da existência de forma tão abrupta. esteja em paz.

andrepinheiro, 08/08/2007.

 

Read Full Post »

é o cão

é o cão

do cachorrinho de madame ao cão selvagem, existem diversos tipos de cachorros. tem ainda o cachorro sem-dono, o cão de guarda e o famigerado vira-lata-nosso-de-cada-dia. sem falar nas referências musicais, como o “cachorro-urubu” de Raul Seixas, o “rock da cachorra” do Dusek, as “cachorras”do funk e até o nome de uma das melhores bandas de rock da atualidade: Cachorro Grande.

mas entre todas essas variações em torno do nome do melhor amigo do homem, poucas causam tanto medo ou embaraço quanto o imprevisível e raivoso “cachorro louco”. auuuuuuuuuuuuu… auuuuuuuuuuuu… uivando para a lua, inquieto, aflito, agressivo; forçando a corrente como um detento que, desesperado, tenta romper os limites do cárcere.

o cachorro louco personifica o descontrole, a desordem, a destruição. é também o “lado escuro”, com o fiel companheiro do homem metamorfoseado, repentinamente, em monstruoso algoz. como se o amável animal de estimação sorvesse a mesma poção que transforma dr. Jekyll em mr. Hyde.

também pode ser vista no raivoso animal enlouquecido a desafiadora ousadia do atacante que recebe a bola e dribla um, dois, três beques para depois deixar ainda o goleiro no chão e marcar o gol da virada. ou então o defensor que divide sem perder a viagem e salva todas, inclusive em cima da linha, para impedir a festa adversária.

essa força está também no artista engajado, politizado, visionário, que late (e muitas vezes morde) por meio de poemas, canções, manifestos e outras obras. ou então na teimosia da trabalhadora e do trabalhador que acordam cedo e, diariamente, defendem a própria sobrevivência. o cachorro louco é como o profissional da imprensa que, indignado, não hesita em denunciar os erros e engodos que a covardia dos meios de comunicação insiste em esconder, visando o beneficio próprio ou de outrem.

semelhante ao cachorro louco é a criança que faz birra, grita, chora e esperneia. é o outsider, o grevista, o exu. transgressão: o espírito rock and roll. encrenca, turbulência, nuvem negra. tempo ruim, confusão. não sei ao certo, mas será por isso que em algumas regiões do Brasil o “coisa-ruim” recebe justamente o apelido de “cão”?

para os hegemônicos e aristocratas, cachorro louco é a designação para toda aquela gente feia e excluída, que reivindica seus direitos, protesta, incomoda. gente revolucionária, que fala alto, vai à luta, coloca o bloco na rua e não se contenta com pouco. que possamos, então, utilizar de modo produtivo e positivo toda a fúria de viver e, como cachorros loucos que somos, aproveitar as oportunidades do nosso tempo para avançar sobre as desigualdades do mundo e latir, bem alto, por um futuro melhor.

andrepinheiro, julho de 2006.

Read Full Post »