ligeira reflexão sobre
a pedra filosofal da poesia
“poesia não é só o que rima e tem sílabas contadas. também é jogo de palavras, é emoção que desperta, é uma maneira especial de ver o mundo” – Ana Maria Machado.
arte de escrever em versos. composição poética de pequena extensão. entusiasmo criador; inspiração. aquilo que desperta o sentimento do belo. o que há de elevado ou comovente nas pessoas ou nas coisas. encanto, graça, atrativo. ao abrir o mais famoso dicionário da Língua Portuguesa, são estes os significados que encontramos para o termo poesia.
a definição do amigo Aurélio pode nos dar uma boa noção do que seja poesia, tanto em sua forma literária (arte de escrever em versos) quanto no que diz respeito a sentimentos e percepções: encanto, graça, atrativo. no entanto, podemos ir muito além do dicionário-nosso-de-cada dia e buscar, nas falas dos próprios poetas, reflexões ou significações mais amplas para esta palavra.
pedra filosofal
perplexidade. sensibilidade. paixão. liberdade. alumbramento. força. epifania. subjetividade. são muitas as idéias associadas aos estados d’alma ou percepções que dão origem ao sentimento poético, que, por sua vez, constitui a gênese do processo alquímico que resultará na pedra filosofal da poesia.
se pensarmos em muito mais do que apenas o famigerado “amor” – que em muitos versos ainda insiste em ser parte importantíssima de clichês como aqueles formados nas rimas com “dor” e “flor” -, podemos considerar a manifestação (escrita ou não) do sentimento (que pode ter qualquer natureza) como o ponto de partida para a poesia.
esse sentimento poético é que despertará no poeta o que a escritora Ana Maria Machado define como espírito poético: “modo poético de ver o mundo, deslumbrado e inventor de novidades. (…) como se o mundo estivesse sendo visto pela primeira vez, de um modo novo. nesse sentido, os poetas fazem a gente lembrar de crianças brincando e descobrindo as coisas. como se a própria linguagem fosse um brinquedo e as palavras pudessem ser reviradas pelo avesso”.
palavra e linguagem
se Jean-Paul Sartre deu à poesia a enigmática definição de “palavra-coisa”, para o lingüista Roman Jakobson ela é “mensagem voltada para a mensagem”. Cecília Meireles utilizou a expressão “palavras olhando apenas para si mesmas”, e o inglês Samuel Taylor Coleridge referiu-se à poesia como “as melhores palavras na melhor ordem”.
significados como os que aparecem no parágrafo anterior ajudam a reforçar a importância da palavra e da linguagem quando se fala de poesia. a esse respeito, podemos então recorrer ao poeta C. Ronald. entrevistado por Marco Vasques, no primeiro volume do livro “Diálogos com a Literatura Brasileira”, ele declarou: “de repente você começa a ver a língua como um objeto autônomo. ela não nos pertence. nós é que temos de fustigá-la, nós é que precisamos domar o dragão para podermos aprender a cuspir fogo, cuspir um fogo diverso através de uma linguagem única, sua”. ainda segundo C. Ronald, “cada poema é uma centelha que nós, poetas, devemos cobrir com a linguagem, sempre dando roupagem nova, sempre dando brilho igualmente diverso a esse fogo”.
olhos livres
poeta marginal, outsider, visto por muitos como maldito, o grande Paulo Leminski considerava a poesia como “a liberdade da minha linguagem”. liberdade certamente imprescindível para tecer, com a força criadora transformada em versos, o que o britânico Mathew Arnold chamou de “crítica da vida”. ou, ainda, a liberdade utilizada para engendrar a poesia, que Ricardo Reis afirmou ser “música que se faz com idéias”.
nas palavras de Mário de Andrade, poesia é “o que o meu inconsciente me grita”. e isso pode resultar tanto em “uma alegria eterna”, expressão utilizada por John Keats, quanto em uma “estrela que leva a Deus”, conforme Victor Hugo.
também no livro “Diálogos com a Literatura Brasileira”, Carlos Nejar argumentou que “poesia é muito mais. é a missão de tornar as palavras mais nobres dentro da linguagem da tribo, dando um sentido novo às coisas, buscando a percepção do universo que nos cerca. e é também ajudar a ver e viver, porque, à medida que vemos as coisas, elas se transformam”. na mesma obra, o catarinense Alcides Buss, manifestou a opinião de que a poesia ainda possui olhos livres. e sentenciou: “cabe à poesia resgatar o homem do naufrágio das ferragens”.
andrepinheiro, 2006
André, o meu pouco conhecimento acerca desse assunto apenas me permite dizer que poesia pra mim é a manifestação da consciência do inconciente humano.
ótimo ensaio, vale discutir mesmo o papel e o carater da poesia, a importancia da simplicidade e da complexidade no texto, entre outros temas relevantes até por demais…
Que bom que há luares para poesias anida no mundo. “Não há de um homem de braçõs fortes carregar o corpo de um poeta” já dizia Álvares deixo singelas palavras minhas aos poetas de todo mundo:
Poetas
Poetas são fortalezas,
Cercados de claras e frágeis flores.
Possuem olhos corajosos,
Banhados por alvas e caladas lágrimas.
Com vozes certas,
Mesmo serenas e sussurradas.
Poetas com dores que assombram a alma,
Porém encobertas e calmas.
Poetas doentes,
Poetas cansados.
De amores veementes,
São feitos e mais nada.
Lira